A ANEEL atualizou sua projeção tarifária nacional para uma alta média de 9,4% em 2026. No Rio Grande do Norte, o reajuste da Cosern foi diferente — e entender essa diferença ajuda a tomar decisões melhores sobre energia solar.
Imagine um empresário em Natal abrindo a conta de energia e lendo uma notícia: “tarifas de energia sobem 9,4% em 2026”. A primeira reação pode ser imediata: “então minha conta da Cosern aumentou 9,4%?”.
Não necessariamente.
A ANEEL divulgou em 18 de setembro a terceira edição de 2026 do boletim InfoTarifas, mostrando um efeito tarifário médio nacional de 9,4% neste ano. O número ficou acima das projeções de 4,4% para o IGP-M e 5,0% para o IPCA apresentadas no próprio boletim.
Mas esse percentual é uma média Brasil. Cada distribuidora possui seu próprio processo tarifário. E no Rio Grande do Norte a história foi diferente.
Quanto a tarifa da Cosern aumentou em 2026?
A Neoenergia Cosern informa que o reajuste tarifário aprovado pela ANEEL em 22 de abril de 2026 teve efeito médio de 5,4% para seus consumidores. Só que até esse número precisa ser entendido com cuidado.
- Baixa tensão — a maior parte das residências e pequenos estabelecimentos: efeito médio de 3,74%
- Alta tensão — indústrias e empresas de maior porte: efeito médio de 10,9%
Ou seja, dois consumidores atendidos pela mesma distribuidora podem sentir impactos bastante diferentes. Essa é uma das razões pelas quais analisar energia solar olhando apenas uma manchete nacional pode levar a conclusões erradas.
Por que a tarifa sobe mais que a inflação?
A conta de energia não acompanha simplesmente o IPCA. A tarifa elétrica é formada por vários componentes.
No reajuste da Cosern de 2026, a própria distribuidora informou que encargos setoriais contribuíram com 1,73 ponto percentual no índice, enquanto transmissão e geração contribuíram com 2,56 pontos. Componentes financeiros também tiveram influência no resultado.
Na composição apresentada pela distribuidora, parte do dinheiro da conta remunera compra e transmissão de energia, outra parte envolve tributos e encargos, e outra remunera a própria atividade de distribuição. É por isso que uma inflação de 5% não significa automaticamente uma tarifa elétrica subindo 5%. O setor possui seus próprios custos.
E o Nordeste recebeu um alívio tarifário em 2026
Existe outro detalhe importante. O novo InfoTarifas já considera aproximadamente R$ 5,5 bilhões em recursos provenientes da repactuação do Uso de Bem Público das hidrelétricas, destinados a distribuidoras das regiões Norte e Nordeste com o objetivo de reduzir os impactos tarifários.
A ANEEL detalhou esse mecanismo em agosto, incluindo a Neoenergia Cosern entre as distribuidoras contempladas. A própria Cosern já havia informado, no reajuste de abril, que recursos relacionados ao UBP foram utilizados para amenizar o impacto tarifário no Rio Grande do Norte.
Isso ajuda a entender uma aparente contradição: a média tarifária brasileira pode estar em 9,4%, enquanto o reajuste médio da Cosern ficou abaixo disso.
Então a energia solar ficou mais vantajosa?
A resposta correta é: a tarifa é uma variável importante, mas não é a única.
Uma conta de energia maior pode aumentar o valor financeiro da energia que deixa de ser comprada da rede ou que é compensada por créditos. Mas a análise não pode parar aí.
A própria ANEEL orienta que a viabilidade da micro e minigeração distribuída deve considerar tarifa, tecnologia, porte da instalação, localização, financiamento e as regras de compensação aplicáveis. Isso é especialmente importante depois da Lei nº 14.300: dois sistemas com a mesma geração mensal podem ter resultados econômicos diferentes dependendo da data de conexão e da regra de compensação aplicável.
Um exemplo simples
Imagine duas empresas consumindo 10.000 kWh por mês, as duas no Rio Grande do Norte. Uma possui geração própria; a outra compra toda a energia da rede.
Quando a tarifa aumenta, a empresa sem geração fica exposta ao aumento sobre praticamente toda a energia faturada. Já a empresa com geração própria ou créditos solares reduz parte dessa exposição, porque uma parcela do consumo é atendida ou compensada pela própria geração, respeitadas as regras do Sistema de Compensação de Energia Elétrica.
Isso não significa que a conta irá zerar. Ainda podem existir custo de disponibilidade, demanda contratada, parcelas de uso da rede, encargos específicos, tributos e a cobrança gradual relacionada ao Fio B para os sistemas enquadrados nas regras posteriores à Lei nº 14.300.
Energia solar reduz despesas. Ela não faz desaparecer toda a estrutura tarifária.
A tarifa da Cosern também não é apenas “preço do kWh”
A tabela tarifária vigente da Neoenergia Cosern, válida de 22 de abril de 2026 a 21 de abril de 2027, mostra para a classe B1 residencial convencional uma tarifa homologada de consumo ativo de R$ 0,77580/kWh, formada por TUSD e TE.
Esse valor não deve ser confundido com o valor final percebido na fatura. A conta pode incluir tributos, bandeira tarifária, contribuição de iluminação pública e outras parcelas conforme o consumidor. É justamente por isso que usar simplesmente “valor da conta dividido pelo consumo” pode gerar resultados imprecisos em uma análise de energia solar.
Para empresas, o cuidado precisa ser ainda maior
Uma residência normalmente olha principalmente para os kWh consumidos. Uma empresa atendida em alta tensão possui uma conta mais complexa, que pode envolver:
- Demanda contratada
- Horário de ponta
- Energia fora de ponta
- Energia reativa
- Multas por ultrapassagem
- Bandeira tarifária
- Geração própria
- Mercado livre
Por isso, instalar energia solar em uma empresa com conta de R$ 30 mil não significa automaticamente projetar uma usina para gerar R$ 30 mil em economia. É necessário saber qual parte da conta é efetivamente reduzível pela geração solar.
Uma notícia nacional não substitui a análise da sua fatura
O dado de 9,4% divulgado pela ANEEL é importante porque mostra uma tendência: o custo da energia elétrica continua pressionando o orçamento dos consumidores brasileiros. Mas ele não deve ser aplicado diretamente sobre a conta de um consumidor potiguar.
No Rio Grande do Norte, o processo tarifário da Cosern teve índices próprios. E mesmo dentro da área da Cosern, consumidores de baixa e alta tensão tiveram impactos diferentes.
Para quem avalia instalar energia solar, a lógica continua a mesma: não comece pela quantidade de painéis. Comece pela conta. Entenda quanto você consome, como é faturado, qual regra tarifária se aplica e quanto da despesa realmente pode ser reduzido.
Porque a pergunta mais importante não é “quanto a energia aumentou no Brasil?”. É: quanto do meu custo de energia continuará exposto aos próximos reajustes?
Fontes
- ANEEL, 18 de setembro de 2026 — ANEEL divulga terceira edição de 2026 do boletim InfoTarifas
- Neoenergia Cosern, 22 de abril de 2026 — ANEEL define reajuste na conta de luz da Neoenergia Cosern
- ANEEL, 11 de agosto de 2026 — repasse para redução de tarifas no Norte e Nordeste
- ANEEL — Micro e Minigeração Distribuída, página atualizada em 9 de junho de 2026: regras e orientações oficiais sobre MMGD e SCEE
Quer conversar sobre o seu caso?
A G2 Engenharia analisa seu consumo e apresenta o dimensionamento com as premissas abertas.
